O Silêncio que Sustenta o Erro (Série: Ep. 03/15)
Nem todo erro precisa de aplausos para crescer.
Às vezes, ele só precisa de silêncio.
Em 2 Samuel, encontramos uma narrativa que vai além de uma decisão isolada. Ela revela um mecanismo invisível, mas recorrente: como o erro se sustenta não apenas por quem o comete, mas por quem escolhe não interrompê-lo.
Um líder decide. Outro executa. E muitos… não dizem nada.
"Sucedeu, pois, que, pondo Joabe a cidade em sítio, pôs a Urias no lugar onde sabia que estavam homens valentes" (BÍBLIA, 2Sm 11:16).
Joabe sabia. Ele não ignorava o risco. Ele entendia o que estava acontecendo. E, ainda assim, prosseguiu.
Esse é o ponto onde a narrativa deixa de ser apenas sobre um rei… e passa a ser sobre sistemas.
O erro raramente se sustenta sozinho. Ele precisa de estrutura. Precisa de continuidade. Precisa de gente que, mesmo desconfortável, decide não interromper o fluxo.
Hannah Arendt observou que o mal pode se tornar banal quando pessoas comuns deixam de questionar o que fazem (ARENDT, 1999, p. 287).
Não porque são más. Mas porque se acostumam.
Existe um tipo de silêncio que não é neutralidade. É participação.
Quando sabemos… e não agimos. Quando percebemos… e nos calamos. Quando discordamos… mas seguimos.
Nesse ponto, o erro já não pertence apenas a quem iniciou. Ele se torna coletivo.
Dietrich Bonhoeffer escreveu que o silêncio diante do mal é, em si, uma forma de mal (BONHOEFFER, 2013, p. 44).
Essa afirmação é desconfortável — porque desloca o problema. Não estamos mais falando apenas de quem erra. Estamos falando de quem permite.
Mas por que o silêncio acontece?
Porque ele protege. Protege posições. Protege relações. Protege interesses.
No caso dessa narrativa, o silêncio protegia uma imagem.
"Porém isto que Davi fez pareceu mal aos olhos do Senhor" (BÍBLIA, 2Sm 11:27).
Ou seja: Ainda que todos se calem… nem tudo está encoberto.
Viktor Frankl afirmou que, entre o estímulo e a resposta, existe um espaço — e nesse espaço reside a liberdade humana (FRANKL, 2008, p. 90).
Joabe teve esse espaço. Ele poderia ter reagido diferente. Mas escolheu manter o curso. E essa escolha custou uma vida.
O mais inquietante nessa história é que nada parecia fora de controle.
A ordem foi cumprida. A narrativa foi mantida. O sistema seguiu funcionando.
Mas há um detalhe que rompe essa aparência: O silêncio humano não é capaz de sustentar uma mentira indefinidamente.
No capítulo seguinte, surge Natã. Sem exército. Sem poder político. Apenas com uma verdade.
"Tu és esse homem" (BÍBLIA, 2Sm 12:7).
E, naquele momento, todo o silêncio acumulado perde sua força.
Essa história não é sobre um tempo distante.
Ela se repete sempre que:
- Alguém escolhe não confrontar para não se comprometer.
- Alguém executa sem questionar para não perder espaço.
- Alguém percebe… mas decide que "não é problema seu".
A pergunta que fica não é confortável:
Quantas vezes o erro continua… não porque é forte, mas porque ninguém decidiu interrompê-lo?
No fim, o silêncio pode parecer seguro.
Mas ele sempre cobra um preço.
E, quase sempre, esse preço é pago por quem menos deveria.
Porque o erro precisa de coragem para ser interrompido.
Mas o silêncio… só precisa de omissão.
Referências (ABNT)
BONHOEFFER, Dietrich. Ética. São Leopoldo: Sinodal, 2013.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. Petrópolis: Vozes, 2008.