Série:A Última Sentença

O Silêncio de Jesus e a Tensão Política em Jerusalém: Uma Análise do Pretório

Série:A Última Sentença

EPISÓDIO I — JERUSALÉM NÃO DORME

Vista histórica de Jerusalém sob o domínio romano durante a Páscoa

O Silêncio do Pretório

Jerusalém não dormia mais como uma cidade.

Ela respirava como um animal acuado.

As ruas estavam tomadas por peregrinos vindos de regiões distantes da Judeia, da Galileia, da Decápolis e até de territórios dominados por Roma. A festa da Páscoa atraía multidões todos os anos, e Roma sabia exatamente o que isso significava: multidões religiosas podiam rapidamente transformar-se em multidões políticas.

O Império romano temia aglomerações movidas por esperança.

Esperança era perigosa.

Do alto das muralhas, tochas iluminavam soldados posicionados em pontos estratégicos. O brilho metálico das armaduras refletia nas pedras antigas da cidade. Cavalos inquietos batiam os cascos contra o chão enquanto oficiais circulavam observando movimentações suspeitas.

Jerusalém parecia viver constantemente entre oração e explosão.

O historiador Flávio Josefo descreveu o período das festas judaicas como momentos de enorme tensão social e militar, especialmente devido ao temor romano de revoltas messiânicas.

Como afirma Josefo:

“As multidões reunidas durante as festas frequentemente despertavam preocupação quanto a tumultos.”
(JOSEFO, Flávio. Guerra dos Judeus. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, p. 412).

Roma entendia algo fundamental sobre o comportamento humano: quanto maior a multidão, menor o controle racional individual.

Por isso soldados extras eram deslocados para Jerusalém durante a Páscoa.

Por isso Pôncio Pilatos estava na cidade.

Por isso homens morreriam naquela semana.

No interior do pretório romano, porém, o ambiente era diferente das ruas.

Ali o silêncio não transmitia paz.
Transmitia poder.

As paredes frias de pedra carregavam o peso das decisões imperiais. Homens haviam entrado naquele salão para sair condenados. Outros haviam implorado misericórdia. Alguns haviam amaldiçoado César até o último suspiro.

Mas naquela madrugada existia algo estranho no ar.

Pilatos caminhava lentamente.

Experiente.
Calculista.
Cansado.

Governar a Judeia era como administrar um barril de pólvora religiosa. Qualquer erro político poderia gerar revoltas. Qualquer revolta poderia chegar aos ouvidos de Roma. E Roma não tolerava governadores incapazes de manter estabilidade.

O filósofo Nicolau Maquiavel escreveu:

“Os homens devem ser acariciados ou eliminados, porque se vingam das pequenas ofensas.”
(MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2010, p. 17).

Pilatos conhecia exatamente essa lógica.

Por isso crucificações eram comuns.

Por isso o império sobrevivia.

Mas diante daquele homem galileu, algo fugia ao padrão habitual.

Jesus de Nazaré permanecia em silêncio.

Não o silêncio do medo.
Nem o silêncio da derrota.

Era um silêncio perturbador.

Como se a violência romana não tivesse conseguido alcançar alguma parte essencial de sua consciência.

Pilatos aproximou-se mais uma vez.

Tentava encontrar sinais conhecidos:
fanatismo político,
ódio,
agressividade,
ambição.

Mas encontrou serenidade.

E homens acostumados ao poder geralmente sentem desconforto diante de pessoas que não parecem controladas pelo medo.

Do lado externo do pretório, soldados aguardavam ordens.

Homens endurecidos pela rotina militar.

Muitos deles não eram romanos de nascimento. O exército imperial recrutava sírios, gregos, samaritanos e homens de regiões conquistadas. Roma transformava povos dominados em instrumentos de domínio.

A violência tornava-se profissão.

A obediência tornava-se sobrevivência.

Hannah Arendt observou algo semelhante ao analisar sistemas políticos violentos:

“O maior mal do mundo é o mal cometido por ninguém.”
(ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 299).

Talvez nenhum daqueles soldados acordasse pensando em maldade.

Eles apenas executavam ordens.

E talvez exatamente aí resida um dos aspectos mais assustadores da história humana: a capacidade de normalizar crueldade quando ela recebe autorização institucional.

O centurião responsável pela guarda observava o prisioneiro à distância.

Veterano.
Cicatrizes no rosto.
Olhos cansados.

Ele havia supervisionado execuções suficientes para conhecer padrões humanos diante da morte.

Alguns condenados gritavam.
Outros enlouqueciam.
Alguns imploravam.
Outros ameaçavam Roma até o último instante.

Mas aquele homem confundia seus instintos militares.

Jesus parecia sofrer…
mas sem ódio.

E isso era raro.

Muito raro.

Quando finalmente veio a autorização para a flagelação, os soldados conduziram o prisioneiro até o pátio interno.

Ali começava o ritual romano da desumanização pública.

Arrancaram suas vestes.
Amarraram-no.
Prepararam o flagrum.

O chicote romano não era instrumento de correção.

Era instrumento de destruição física.

Tiras de couro misturavam-se a fragmentos metálicos e ossos presos às extremidades. Cada golpe rasgava pele, músculos e vasos sanguíneos.

Muitos morriam apenas durante a flagelação.

Mas Roma preferia que alguns sobrevivessem.

A crucificação precisava acontecer diante do público.

Precisava ensinar.

Precisava aterrorizar.

Michel Foucault escreveu:

“O suplício faz parte de um ritual político.”
(FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1987, p. 47).

Nada ali era apenas violência aleatória.

Tudo possuía função política.

A dor.
A nudez.
A humilhação.
A exposição pública.

O condenado precisava desaparecer socialmente antes de morrer fisicamente.

Os soldados começaram a zombar.

Colocaram um manto sobre os ombros feridos de Jesus.

Uma coroa improvisada de espinhos foi pressionada violentamente sobre sua cabeça.

“Salve, rei dos judeus!”

Risos ecoaram pelo pátio.

Cusparadas.

Deboche.

Talvez a multidão humana sempre tenha sentido prazer estranho em destruir aquilo que não consegue compreender.

Fiódor Dostoiévski escreveu:

“O homem é um ser que se acostuma a tudo.”
(DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias da Casa dos Mortos. São Paulo: Editora 34, 2006, p. 29).

Os soldados haviam se acostumado à violência.

A multidão havia se acostumado ao sofrimento público.

Jerusalém havia se acostumado ao medo.

Talvez seja exatamente isso que torna sociedades perigosas: quando o horror deixa de chocar.

Do lado de fora, pessoas começavam a se aglomerar.

Alguns estavam curiosos.
Outros revoltados.
Outros excitados pela possibilidade de espetáculo.

Execuções públicas atraíam observadores.

Roma compreendia profundamente a psicologia coletiva.

O filósofo René Girard afirmou:

“A violência coletiva une momentaneamente uma comunidade.”
(GIRARD, René. A Violência e o Sagrado. São Paulo: Paz e Terra, 1990, p. 112).

O mecanismo do bode expiatório sempre funcionou com impressionante eficiência social.

Quando multidões encontram alguém para culpar, sentem-se temporariamente purificadas.

Talvez fosse exatamente isso que estivesse acontecendo naquela manhã.

Jesus carregava não apenas uma cruz futura.
Carregava projeções humanas:
medos,
ódios,
frustrações,
fanatismos,
interesses políticos.

Quando os soldados colocaram a trave horizontal sobre seus ombros, o céu começava lentamente a clarear.

A cidade despertava completamente.

Comerciantes abriam tendas.
Crianças atravessavam ruas estreitas.
Religiosos discutiam leis.
Peregrinos procuravam hospedagem.

Enquanto isso, um homem caminhava em direção à morte pública.

O mais assustador sobre grandes tragédias humanas talvez seja justamente isso: o mundo continua funcionando normalmente ao redor delas.

O caminho até o Gólgota não era longo.

Mas sofrimento altera distâncias.

Cada passo parecia esmagar músculos, ossos e respiração.

A flagelação havia destruído grande parte de suas forças físicas.

Os soldados percebiam isso.

O condenado começava a cair.

Roma precisava que ele chegasse vivo ao local da execução.

Então escolheram um homem aleatório na multidão:
Simão de Cirene.

Não houve pedido.
Houve ordem.

Ninguém discutia ordens romanas.

O centurião continuava observando tudo.

Silencioso.

Talvez algo começasse lentamente a quebrar dentro dele.

Porque existe um limite invisível entre cumprir deveres… e perceber a própria participação em uma máquina de brutalidade.

Viktor Frankl escreveu:

“Entre o estímulo e a resposta existe um espaço. Nesse espaço está nosso poder de escolher.”
(FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 87).

Talvez o centurião começasse a perceber esse espaço pela primeira vez.

Ao chegarem ao alto do Gólgota, os soldados iniciaram os procedimentos habituais.

Madeira.
Cordas.
Pregos.
Martelo.

Rotina militar.

Os executores já haviam feito aquilo inúmeras vezes.

O império havia aperfeiçoado a arte de matar lentamente.

A crucificação não era apenas execução.
Era comunicação política.

Cada corpo pendurado anunciava:
Roma domina.
Roma vence.
Roma controla.

Os soldados dividiram as roupas do condenado.

Conversavam entre si.

Alguns riam.

Talvez nenhum deles imaginasse que séculos depois o mundo ainda falaria sobre aquela execução específica.

Porque, para Roma, aquilo era apenas mais uma sexta-feira.

Mas para o centurião, algo estava diferente.

Muito diferente.

Ele observava o homem pregado na cruz e percebia algo que não conseguia explicar racionalmente.

Já havia visto homens amaldiçoarem deuses.
Gritarem por mães.
Implorarem misericórdia.
Cuspirem sangue e ódio.

Mas aquele homem ainda falava sobre perdão.

Isso desorganizava completamente a lógica militar romana.

Porque impérios compreendem força.
Mas raramente compreendem dignidade silenciosa diante da violência.

Enquanto a multidão gritava e zombava, talvez o centurião começasse lentamente a enxergar algo que sistemas violentos sempre tentam destruir: a humanidade do condenado.

E talvez seja exatamente isso que torna a história do Calvário tão perturbadora até hoje.

Ela não revela apenas a morte de um homem.

Ela revela até onde multidões,
instituições,
política,
religião
e poder
podem ir quando deixam de enxergar humanidade no outro.

REFERÊNCIAS

  • ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
  • DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias da Casa dos Mortos. São Paulo: Editora 34, 2006.
  • FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.
  • FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. Petrópolis: Vozes, 2008.
  • GIRARD, René. A violência e o sagrado. São Paulo: Paz e Terra, 1990.
  • JOSEFO, Flávio. Guerra dos Judeus. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
  • MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
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