Série:A Última Sentença

EPISÓDIO IV — A MULTIDÃO: Quando o Homem Deixa de Pensar

EPISÓDIO IV — A MULTIDÃO

Multidão condenando Jesus — cena histórica bíblica

Quando o Homem Deixa de Pensar

Jerusalém já não parecia uma cidade naquela manhã.

Parecia um organismo emocional.

As ruas estreitas pulsavam ansiedade coletiva. O som das sandálias sobre as pedras misturava-se aos gritos, aos rumores e ao barulho metálico das armaduras romanas. Comerciantes tentavam continuar trabalhando, mas até eles lançavam olhares inquietos na direção do pretório.

Algo estava acontecendo.

E multidões sempre conseguem sentir quando o sangue está próximo.

Jesus de Nazaré foi conduzido novamente para fora do pátio interno sob escolta militar. Seu corpo carregava marcas profundas da flagelação. O manto improvisado já estava encharcado de sangue.

Mesmo assim, a multidão não se afastava.

Pelo contrário.

Ela crescia.

Porque existe algo profundamente inquietante na natureza humana:

o sofrimento público atrai observadores.

Alguns se aproximavam movidos por ódio.

Outros por curiosidade.

Outros apenas porque multidões produzem um estranho magnetismo psicológico.

O filósofo Elias Canetti escreveu:

“A massa quer sempre crescer.”

(CANETTI, Elias. Massa e Poder. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 29).

E Jerusalém estava crescendo emocionalmente naquela manhã.

O centurião caminhava próximo aos soldados tentando manter ordem. Seus olhos observavam a movimentação popular com atenção profissional. Ele conhecia aquele tipo de ambiente.

Bastava uma pedra.

Um grito.

Uma reação impulsiva.

E a cidade poderia explodir.

Roma compreendia profundamente o perigo das multidões emocionais.

Por isso crucificações eram públicas.

Não apenas para punir indivíduos.

Mas para controlar massas.

A cruz funcionava como linguagem política.

Cada condenado anunciava silenciosamente:

“Roma permanece no controle.”

Os sacerdotes caminhavam próximos ao governador romano tentando consolidar pressão coletiva.

A estratégia era simples:

transformar o caso de Jesus em unanimidade emocional.

Porque quando a multidão assume determinada narrativa, indivíduos passam a sentir medo de discordar.

Gustave Le Bon observou:

“Na multidão, o indivíduo perde sua personalidade consciente.”

(LE BON, Gustave. Psicologia das Multidões. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 31).

Era exatamente isso que acontecia diante do pretório.

Pessoas que talvez jamais condenassem alguém sozinhas agora gritavam junto ao grupo.

“Crucifica-o!”

A frase começou isolada.

Depois cresceu.

Depois tornou-se coro.

Talvez uma das características mais perigosas das multidões seja justamente essa:

elas distribuem responsabilidade.

Quando todos gritam juntos, ninguém sente culpa sozinho.

Sigmund Freud escreveu:

“O grupo substitui o ideal do ego de cada indivíduo.”

(FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas e Análise do Eu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 56).

O indivíduo desaparece emocionalmente dentro da massa.

E isso altera comportamentos profundamente.

Homens pacíficos tornam-se violentos.

Pessoas comuns tornam-se cruéis.

A dúvida desaparece.

O grupo pensa por todos.

Pilatos percebeu exatamente esse fenômeno crescendo diante dele.

A situação começava a escapar do controle racional.

Os líderes religiosos agitavam a multidão habilmente. Cada acusação contra Jesus era repetida até ganhar aparência de verdade absoluta.

“Blasfemo.”

“Falso rei.”

“Perigoso.”

“Agitador.”

Talvez nenhuma arma seja mais poderosa do que repetir narrativas até que multidões passem a tratá-las como realidade.

George Orwell escreveu:

“Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado.”

(ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 41).

O controle narrativo sempre foi essencial para sistemas de poder.

Roma sabia disso.

Os sacerdotes sabiam disso.

A multidão, porém, acreditava estar apenas reagindo espontaneamente.

O centurião observava os rostos ao redor.

Era impressionante como emoções se espalhavam rapidamente entre as pessoas.

O medo.

A raiva.

O entusiasmo.

Tudo parecia contagioso.

Carl Gustav Jung escreveu:

“As pessoas farão qualquer coisa, não importa quão absurda, para evitar enfrentar suas próprias almas.”

(JUNG, Carl Gustav. Psicologia e Religião. Petrópolis: Vozes, 2012, p. 71).

Talvez multidões violentas também funcionem assim:

elas oferecem distração coletiva para conflitos internos individuais.

É mais fácil condenar alguém externamente do que confrontar o próprio vazio interior.

Enquanto os gritos aumentavam, Jesus permanecia em silêncio.

E talvez esse silêncio irritasse ainda mais a massa.

Porque multidões gostam de oposição clara.

Ela sabem lidar com inimigos agressivos.

Mas não sabem lidar com dignidade silenciosa.

Isso desorganiza emocionalmente o grupo.

Um homem começou a rir enquanto apontava para Jesus.

Outro repetiu.

Depois vários.

O riso coletivo espalhou-se rapidamente.

Porque a zombaria possui enorme função psicológica:

ela reduz empatia.

Quando alguém vira objeto de piada, torna-se mais fácil justificar sofrimento contra ele.

René Girard observou:

“A unanimidade violenta funda comunidades.”

(GIRARD, René. O Bode Expiatório. São Paulo: Paulus, 2004, p. 24).

Talvez Jerusalém estivesse vivendo exatamente isso.

Uma comunidade momentaneamente unida contra um único homem.

O mais assustador é que muitos ali provavelmente acreditavam sinceramente estar defendendo Deus.

A história humana mostra repetidamente como religião, política e medo podem formar alianças extremamente perigosas.

O filósofo Soren Kierkegaard escreveu:

“A multidão é mentira.”

(KIERKEGAARD, Soren. Ponto de Vista Explicativo da Minha Obra como Escritor. Lisboa: Edições 70, 2002, p. 118).

Porque multidões frequentemente eliminam responsabilidade individual.

Nelas, consciência dissolve-se.

O centurião começou lentamente a sentir desconforto crescente.

Ele já havia controlado tumultos antes.

Já havia assistido execuções públicas.

Mas existia algo diferente naquela cena.

Talvez porque percebesse que o homem diante deles não representava ameaça militar real.

Mesmo assim, a violência coletiva aumentava.

Isso o inquietava.

Muito.

O jovem soldado da flagelação aproximou-se discretamente do centurião.

“Por que eles odeiam tanto esse homem?”

O oficial permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois respondeu baixo:

“Às vezes multidões precisam odiar alguém para sentirem que pertencem ao mesmo lado.”

O rapaz pareceu refletir.

Porque talvez estivesse começando a perceber algo perturbador sobre o funcionamento humano.

A massa não busca necessariamente justiça.

Frequentemente busca unidade emocional.

E nada une mais rapidamente do que um inimigo comum.

Erich Fromm escreveu:

“O indivíduo deixa de ser ele mesmo; adota inteiramente o tipo de personalidade que lhe é oferecido pelos padrões culturais.”

(FROMM, Erich. O Medo à Liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1983, p. 183).

Jerusalém agora oferecia um padrão emocional coletivo:

condenar Jesus.

Quem discordasse arriscava isolamento social.

Pilatos percebeu isso tarde demais.

Quando tentou libertar Jesus, a multidão reagiu imediatamente.

“Se soltas esse homem, não és amigo de César!”

A frase atingiu diretamente o ponto mais sensível do governador:

sobrevivência política.

Roma não tolerava suspeitas de deslealdade imperial.

O silêncio tomou conta do rosto de Pilatos por alguns segundos.

O centurião observou a mudança imediatamente.

Ali terminava qualquer possibilidade real de libertação.

Porque sistemas políticos acuados frequentemente sacrificam inocentes para preservar estabilidade.

Zygmunt Bauman escreveu:

“A racionalidade burocrática pode produzir atrocidades sem paixão.”

(BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 26).

Pilatos não parecia movido por ódio.

Parecia movido por cálculo.

E talvez exatamente isso torne certas violências ainda mais assustadoras.

Quando homens deixam de matar por raiva…

e começam a matar por conveniência.

O governador finalmente levantou-se.

Lavou as mãos diante da multidão.

Um gesto simbólico.

Mas o centurião sabia:

nenhuma água remove responsabilidade moral.

Os soldados receberam então a ordem definitiva.

A crucificação aconteceria.

A multidão explodiu emocionalmente.

Alguns comemoravam.

Outros choravam.

Outros apenas observavam em silêncio estranho.

Porque até mesmo no meio da massa existem pessoas que percebem que algo profundamente errado está acontecendo.

Jesus foi novamente conduzido pelos soldados.

O centurião caminhava logo atrás.

E enquanto os gritos ecoavam pelas ruas de Jerusalém, uma pergunta começou lentamente a surgir dentro dele:

Se todos estão convencidos…

por que isso ainda parece tão errado?

Talvez fosse o início de algo que Roma jamais conseguiria controlar completamente:

o despertar silencioso da consciência humana.


REFERÊNCIAS (ABNT)

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e holocausto. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

CANETTI, Elias. Massa e poder. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

GIRARD, René. O bode expiatório. São Paulo: Paulus, 2004.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. Petrópolis: Vozes, 2012.

KIERKEGAARD, Søren. Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor. Lisboa: Edições 70, 2002.

LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

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