Série:A Última Sentença

O Gólgota: Quando a Cruz Desmontou a Lógica do Império Romano

EPISÓDIO VI — A CRUZ

Ilustração da crucificação de Jesus no Gólgota sob o olhar do centurião romano

O Espetáculo da Dor

O vento no alto do Gólgota soprava seco naquela manhã.

Jerusalém podia ser vista à distância como uma cidade viva e indiferente ao mesmo tempo. Das muralhas vinham ruídos de comércio, conversas, animais e movimentações da Páscoa. A cidade continuava funcionando normalmente enquanto homens eram preparados para morrer.

Talvez uma das características mais perturbadoras da história humana seja justamente essa:
o mundo raramente para diante da dor de alguém.

Os soldados romanos começaram os preparativos finais da execução.

Tudo acontecia de forma prática.
Quase mecânica.

  • Cordas.
  • Pregos.
  • Martelo.
  • Madeira.

O centurião supervisionava cada detalhe com a precisão de quem já havia participado de inúmeras crucificações. A rotina militar exigia eficiência emocional.

Roma transformara a morte em técnica.

Michel Foucault escreveu:

“O suplício penal é uma cerimônia.”
(FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1987, p. 44).

A crucificação não era apenas execução.

Era teatro político.

A vítima precisava morrer diante do olhar público.
Precisava tornar-se aviso.
Precisava comunicar poder.

Cada cruz erguida dizia silenciosamente:
“Roma domina corpos, territórios e destinos.”

Jesus de Nazaré foi colocado sobre a madeira.

Seu corpo já estava destruído pela flagelação e pela caminhada até o Gólgota. As feridas abertas grudavam na superfície áspera da cruz.

Os soldados seguraram seus braços.

O jovem soldado que participara da escolta hesitou novamente.

O centurião percebeu.

Dessa vez não disse nada.

Talvez porque também estivesse começando a lutar internamente contra algo que evitara durante décadas:
a própria consciência.

O primeiro prego foi posicionado.

O martelo desceu.

O som metálico atravessou o alto da colina.

Algumas pessoas da multidão desviaram o olhar.
Outras aproximaram-se ainda mais.

Porque o sofrimento humano provoca reações contraditórias.

  • Repulsa.
  • Curiosidade.
  • Fascínio.
  • Medo.

René Girard escreveu:

“A violência possui sempre uma dimensão contagiosa.”
(GIRARD, René. A Violência e o Sagrado. São Paulo: Paz e Terra, 1990, p. 52).

A multidão no Gólgota começava lentamente a transformar-se em organismo emocional coletivo.

Alguns gritavam insultos.
Outros observavam em silêncio perturbado.
Sacerdotes mantinham expressão de aparente vitória.

Os soldados continuaram o procedimento.

Outro braço.
Os pés.
Cordas de sustentação.

Tudo era realizado rapidamente.

Experiência militar.

O centurião observava o rosto de Jesus durante a execução.

Já havia visto homens amaldiçoarem soldados naquele momento.
Já ouvira gritos de ódio.
Pedidos desesperados.
Promessas de vingança.

Mas aquele homem ainda permanecia diferente.

Isso começava a incomodá-lo profundamente.

Viktor Frankl escreveu:

“Quando não somos mais capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos.”
(FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 112).

Talvez o centurião estivesse começando exatamente esse processo.

A cruz foi então erguida lentamente.

Os soldados puxaram as cordas enquanto a madeira subia contra o céu.

O impacto final da estrutura encaixando-se no solo provocou novo estremecimento no corpo do condenado.

A multidão reagiu imediatamente.

  • Gritos.
  • Deboche.
  • Comentários.

“Salvou os outros!”
“Desça da cruz!”
“Se é rei, prove!”

Talvez a humanidade sempre tenha sentido necessidade de humilhar aquilo que não compreende.

Fiódor Dostoiévski escreveu:

“O homem às vezes ama o sofrimento.”
(DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do Subsolo. São Paulo: Editora 34, 2009, p. 19).

O Gólgota parecia revelar exatamente isso.

A multidão alimentava-se emocionalmente daquela cena.

Porque o sofrimento público frequentemente produz sensação ilusória de superioridade moral em quem observa.

Os soldados agora aguardavam.

A parte física da execução havia terminado.
Restava esperar a morte.

Alguns sentaram-se próximos da cruz.

Outros começaram a dividir as roupas de Jesus.

Jogavam sortes.
Riam.
Conversavam sobre assuntos comuns.

Como se a morte fosse apenas mais uma tarefa do expediente.

Hannah Arendt escreveu:

“A banalidade do mal consiste precisamente na normalidade dos atos monstruosos.”
(ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 310).

Talvez o mais assustador não fosse a violência em si.
Mas sua normalização.

O jovem soldado observava em silêncio.

Suas mãos tremiam discretamente.

Ele tentava escondê-las.

O centurião aproximou-se lentamente.

“Você se acostuma.”

Mas enquanto pronunciava aquelas palavras, percebeu algo desconfortável:
talvez ele próprio nunca tivesse realmente se acostumado.

Talvez apenas tivesse aprendido a enterrar emoções profundamente.

O filósofo Carl Gustav Jung escreveu:

“Aquilo que negamos nos submete; aquilo que aceitamos nos transforma.”
(JUNG, Carl Gustav. Psicologia e Alquimia. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 41).

Talvez o centurião estivesse começando lentamente a aceitar algo que negara por toda vida militar:
o peso moral da violência repetida.

O céu começou lentamente a mudar.

Nuvens escuras avançavam sobre Jerusalém.

O vento aumentou.

A multidão começou a ficar inquieta.

Mesmo os soldados perceberam a mudança no ambiente.

Mas algo ainda mais estranho acontecia:
Jesus continuava falando sobre perdão.

Perdão.

No meio da execução.

Isso desorganizava completamente a lógica psicológica dos presentes.

Porque violência normalmente produz violência em retorno.

Ódio responde ao ódio.

Mas aquele homem parecia interromper esse mecanismo.

Martin Luther King Jr. afirmou séculos depois:

“O ódio multiplica o ódio.”
(KING JR., Martin Luther. A Força de Amar. Rio de Janeiro: Zahar, 2020, p. 63).

Talvez o Gólgota estivesse revelando exatamente o contrário da lógica imperial:
a possibilidade de não responder brutalidade com brutalidade.

Os sacerdotes continuavam observando.

Queriam confirmação pública da derrota daquele homem.

Roma queria estabilidade.
Os líderes religiosos queriam silêncio definitivo.
A multidão queria desfecho.

Mas o centurião começou lentamente a sentir outra coisa:
culpa.

Uma culpa antiga.
Profunda.
Esquecida sob anos de disciplina militar.

Porque às vezes basta um único rosto humano para desmontar justificativas construídas durante décadas.

Erich Fromm escreveu:

“A crueldade é tentativa frustrada de destruir aquilo que nos ameaça interiormente.”
(FROMM, Erich. Anatomia da Destrutividade Humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1975, p. 217).

Talvez Roma temesse exatamente isso:
homens capazes de permanecer humanos mesmo sob violência extrema.

A escuridão aumentou.

O vento tornou-se mais forte.

Algumas pessoas começaram a deixar o local inquietas.

Outras permaneciam observando em silêncio absoluto.

O centurião já não conseguia desviar os olhos da cruz.

Então ouviu as últimas palavras de Jesus.

E algo finalmente se rompeu dentro dele.

Talvez não tenha compreendido tudo.
Talvez não soubesse explicar racionalmente.

Mas naquele instante percebeu algo impossível de ignorar:

aquele homem não estava morrendo como criminoso comum.

Havia dignidade demais.
Consciência demais.
Humanidade demais.

O oficial romano respirou profundamente enquanto observava o céu escurecido sobre Jerusalém.

E então pronunciou palavras que surpreenderam até os próprios soldados:

“Verdadeiramente este homem era justo.”

Ou, segundo outra tradição dos evangelhos:

“Verdadeiramente este homem era Filho de Deus.”

O silêncio caiu sobre parte da colina.

E talvez pela primeira vez em muitos anos o centurião tenha compreendido algo que Roma jamais conseguiu dominar completamente:

o interior humano.

Impérios podem controlar territórios.
Controlar exércitos.
Controlar multidões.

Mas existem consciências que permanecem livres até mesmo diante da morte.

Referências

  • ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
  • DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do subsolo. São Paulo: Editora 34, 2009.
  • FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.
  • FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. Petrópolis: Vozes, 2008.
  • FROMM, Erich. Anatomia da destrutividade humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
  • GIRARD, René. A violência e o sagrado. São Paulo: Paz e Terra, 1990.
  • JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes, 2011.
  • KING JR., Martin Luther. A força de amar. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
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