O Eleito, C.S. Lewis e o Sofrimento: Por que o poder bruto nunca resolve a crise humana
O Eleito, sofrimento e mal: por que o poder não resolve a dor humana?
A série O Eleito, da Netflix, não se propõe a ser uma adaptação bíblica literal, mas utiliza com maestria os símbolos do cristianismo e o arquétipo universal do Messias para mergulhar em questões viscerais: poder, identidade, mas, acima de tudo, a persistência do sofrimento. Ao dialogar com o imaginário cristão dentro de uma narrativa contemporânea, a obra nos força a encarar o paradoxo de um "escolhido" em um mundo que continua a sangrar.
O poder que deslumbra pode curar o corpo, mas será capaz de redimir a alma ferida pelo mal?
1. A pergunta que nenhuma série consegue evitar
Em O Eleito, a tensão narrativa não reside apenas na descoberta dos dons de Jodie. O verdadeiro conflito emana da realidade brutal que o cerca: a violência das gangues, a corrupção sistêmica, a injustiça social e a desesperança das margens. Diante de um prodígio, a pergunta do povo — e do espectador — é inevitável: Se existe poder para mudar as leis da física, por que o mal moral continua a prosperar?
Este é o "calcanhar de Aquiles" das narrativas de super-heróis e messias políticos: a sugestão de que o acúmulo de poder resolve o sofrimento. A história, porém, é o cemitério das utopias baseadas na força. O problema central que Jodie enfrenta não é a falta de energia ou autoridade; é a presença ontológica e corrosiva do mal.
2. O problema do mal: a questão mais antiga da humanidade
Desde Epicuro até os teólogos contemporâneos, o debate sobre a teodiceia — a defesa da bondade de Deus ante o mal — estrutura o pensamento ocidental. Se o "escolhido" é bom e poderoso, por que a dor persiste? C. S. Lewis, em sua obra clássica O Problema do Sofrimento, oferece uma perspectiva que desafia nossa busca por conforto imediato:
“Deus sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas grita em nossas dores: a dor é o megafone de Deus para despertar um mundo surdo.” (LEWIS, 2009, p. 91).
Para Lewis, a dor não é uma falha no sistema de um Deus benevolente, mas um sintoma da ruptura entre a criatura e o Criador. A série toca na superfície da dor social, mas o cristianismo histórico mergulha na raiz: o mal não é apenas um problema político a ser resolvido, mas uma condição existencial a ser redimida.
3. A expectativa equivocada de um salvador poderoso
O imaginário moderno é viciado na estética da força. Esperamos salvadores que operem intervenções espetaculares, que esmaguem a oposição e estabeleçam a paz por decreto. Jodie, na série, é pressionado a ser esse tipo de ícone. Entretanto, o cristianismo apresenta um modelo diametralmente oposto.
O teólogo John Stott observa que a maior demonstração de poder de Deus não ocorreu no espetáculo, mas na aparente derrota da crucificação: “A cruz não foi um acidente trágico, mas o centro do propósito eterno de Deus” (STOTT, 2007, p. 45). Enquanto o mundo pede milagres que removam o incômodo, a fé cristã oferece uma redenção que transforma o próprio sofredor.
4. Milagre versus Redenção: A profundidade do ato
Um milagre pode restaurar a visão ou curar uma enfermidade, resolvendo uma crise imediata. Contudo, milagres não impedem que o homem curado continue a odiar ou a sofrer internamente. A redenção, por outro lado, ataca a raiz do problema humano: a inclinação para o mal.
Alvin Plantinga, filósofo de destaque na defesa do livre-arbítrio, argumenta que a existência do mal é o custo da liberdade real. Sem a possibilidade de escolher o mal, o amor humano seria apenas programação biológica. Deus, portanto, teria razões moralmente suficientes para permitir a dor em prol de um bem maior: a liberdade de amar genuinamente (PLANTINGA, 1974, p. 29). O "poder" de Jodie é testado exatamente neste ponto — ele pode forçar a obediência, mas não pode forçar a virtude.
5. Sofrimento como revelação da finitude
O sofrimento tem uma função pedagógica cruel, porém necessária: ele nos lembra que não somos deuses. Ele quebra nossa ilusão de autossuficiência. Narrativas messiânicas nos atraem porque prometem o retorno do controle sobre o caos.
Viktor Frankl, que encontrou sentido no meio do horror absoluto, afirma: “O sofrimento deixa de ser sofrimento no momento em que encontra um sentido” (FRANKL, 2011, p. 113). O cristianismo não promete a abolição da dor neste plano, mas oferece um sentido que sustenta o indivíduo através dela, algo que nenhum poder político ou milagroso pode fabricar.
6. O Deus Crucificado: Poder na Vulnerabilidade
A série O Eleito joga com a ideia de um poder que emerge. O cristianismo, por sua vez, apresenta o escândalo de um poder que se esvazia. Jürgen Moltmann revolucionou o debate com a ideia de que um Deus que não sofre não seria capaz de amar verdadeiramente:
“Um Deus que não sofre não pode amar. Um Deus que não pode sofrer é um ser morto, não o Deus vivo.” (MOLTMANN, 1974, p. 222).
A resposta cristã ao mal não é uma explicação filosófica fria, mas uma Presença encarnada. Deus não observa a dor do alto; Ele entra nela, sentindo o peso do prego e do abandono. Isso redefine o que significa ser "Eleito".
7. O conflito entre o Espetáculo e a Cruz
Por que preferimos o poder de Jodie à cruz de Cristo? Porque o poder valida nossa vontade de domínio, enquanto a cruz expõe nossa falência moral. Blaise Pascal capturou essa dualidade humana com precisão cirúrgica ao dizer que o homem é capaz de conhecer a Deus, mas também é capaz de uma miséria infinita (PASCAL, 2005, p. 131).
O espetáculo do milagre é sedutor, mas a cruz é confrontadora. O poder confirma quem achamos que somos; a cruz revela quem realmente somos e do que realmente precisamos.
8. A esperança que transcende o sistema
Se o problema humano fosse puramente sociológico, boas leis bastariam. Se fosse psicológico, teríamos a cura na terapia. Mas o mal, conforme apresentado na tradição agostiniana, é um privatio boni — uma ausência de bem no coração. Agostinho escreveu: “Inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti” (AGOSTINHO, 2004, p. 37).
A esperança cristã não é um otimismo ingênuo de que "tudo vai ficar bem", mas a certeza de que o mal não tem a última palavra, mesmo quando ele parece vencer no presente.
9. Reflexão Prática: Controle ou Redenção?
Ao acompanhar a jornada de Jodie em O Eleito, o convite para o leitor é abandonar a busca por soluções mágicas. A série funciona como um espelho de nossas próprias expectativas frustradas. A pergunta final não é sobre Jodie, mas sobre nós: buscamos um poder que nos dê controle sobre as circunstâncias ou uma redenção que nos dê paz apesar das circunstâncias?
10. Conclusão: Para além do extraordinário
Em resumo, O Eleito é uma excelente porta de entrada para discutirmos a sede humana pelo divino. Contudo, a fé cristã histórica oferece uma resposta muito mais densa do que qualquer roteiro ficcional. Ela enfrenta o problema do mal não com a remoção da dor, mas com a transformação do sofredor através de um Deus que escolheu a vulnerabilidade.
A verdadeira esperança não reside em um menino com dons, mas na promessa de que o Criador do universo conhece a nossa dor por experiência própria. E é essa identificação, e não o poder bruto, que tem o verdadeiro potencial de curar o mundo.
Referências Bibliográficas
AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Paulus, 2004.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. Petrópolis: Vozes, 2011.
LEWIS, C. S. O problema do sofrimento. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
MOLTMANN, Jürgen. O Deus crucificado. São Paulo: Loyola, 1974.
PASCAL, Blaise. Pensamentos. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2005.
PLANTINGA, Alvin. God, Freedom and Evil. Grand Rapids: Eerdmans, 1974.
STOTT, John. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 2007.
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