Isaías 61 e a verdadeira natureza da missão cristã
Isaías 61 e a verdadeira natureza da missão cristã
Entre a redenção bíblica e as distorções históricas do conceito de missão
Poucos textos bíblicos revelam com tanta clareza o coração da missão quanto Isaías 61. Não por acaso, Jesus escolhe exatamente esse texto para inaugurar publicamente o seu ministério, conforme registra Lucas (NVI):
Ele foi a Nazaré, onde havia sido criado, e no dia de sábado entrou na sinagoga, como era seu costume, e levantou-se para ler. Foi-lhe entregue o pergaminho do profeta Isaías. Desenrolando-o, encontrou o lugar onde está escrito:
“O Espírito do Soberano Senhor está sobre mim, porque me ungiu para proclamar boas-novas aos pobres. Ele me enviou para ligar os corações partidos, proclamar liberdade aos cativos e liberação do escuro da prisão para os presos, para proclamar o ano da bondade do Senhor.”
Então ele fechou o livro, devolveu-o ao assistente e assentou-se. Todos na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Ele começou dizendo-lhes: “Hoje se cumpriu esta Escritura que vocês acabaram de ouvir.” (Lucas 4:16-21, NVI)
Ao fazer isso, Jesus não apenas se identifica como o Ungido prometido, mas redefine, de forma definitiva, o que é missão — e o que ela jamais pode ser.
Em um tempo em que a palavra “missão” por vezes tem sido associada a interesses humanos distorcidos — ideológicos, expansionistas ou institucionais —, Isaías 61 nos convida a retornar ao centro: a missão nasce no caráter de Deus e se manifesta na restauração integral do ser humano ferido.
- A missão começa em Deus, não no projeto humano
“O Espírito do Soberano Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu…” (Isaías 61:1, NVI)
Karl Barth escreveu com clareza lapidar:
“Deus não é o tema de uma religião humana, mas o Senhor que se revela a Si mesmo.”¹
A revelação cristã não começa no homem em busca de Deus, mas em Deus que se revela ao homem. A missão não é primariamente uma iniciativa humana ou institucional, mas um desdobramento da ação soberana de Deus na história.
David Bosch, em Transforming Mission, nomeia esse princípio como Missio Dei:
“A missão é primariamente a missão de Deus, e não da igreja. A igreja é chamada a participar da missão de Deus, e não a possuí-la.”²
Isaías 61 começa com Deus como sujeito. O enviado não age por vocação pessoal isolada, mas por comissão divina. Isso protege a missão de se tornar mero projeto de poder.
Fontes bíblicas: Isaías 61:1; João 20:21 — “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio.” (NVI) - Missão não é colonização cultural
“...para proclamar boas-novas aos pobres.” (Isaías 61:1, NVI)
Lesslie Newbigin observou com profunda lucidez:
“O maior erro da missão moderna foi identificar o Evangelho com a cultura europeia e, portanto, impor não o Cristo crucificado, mas uma civilização ocidental.”³
A encarnação de Cristo — “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1:14, NVI) — é o modelo definitivo: Deus entra na história humana sem anulá-la.
Christopher J. H. Wright afirma:
“Deus não está interessado em apagar culturas, mas em redimir pessoas dentro de suas culturas.”⁴
Missão não apaga identidades, mas restaura pessoas em suas realidades concretas.
Fontes bíblicas: João 1:14; Filipenses 2:6-8 (NVI). - Missão não é aprisionamento espiritual
“...proclamar liberdade aos cativos…” (Isaías 61:1, NVI)
Dietrich Bonhoeffer advertiu:
“Quando a igreja se transforma em guardiã da consciência, ela se torna o mais perigoso dos carcereiros.”⁵
Onde a missão gera medo, dependência cega ou controle indevido, ela já se afastou do Evangelho. Jesus chama seguidores para liberdade responsável no Espírito.
Paulo escreve: “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.” (2 Coríntios 3:17, NVI)
Missão que aprisiona não liberta; apenas muda o carcereiro.
Fontes bíblicas: João 8:32; 2 Coríntios 3:17 (NVI). - Missão não é sistema opressor
“...para consolar todos os que andam tristes…” (Isaías 61:2, NVI)
René Padilla afirmou com coragem profética:
“Evangelho sem justiça é um evangelho que não é evangelho.”⁶
Isaías 61 surge em contexto de exílio e opressão. Deus entra na dor para transformá-la. A missão bíblica confronta o que desumaniza, sempre com compaixão.
John Stott escreveu:
“Evangelização sem envolvimento com o sofrimento do mundo é teologicamente incompleta.”⁷
Missão não ignora a injustiça — é presença redentora no meio dela.
Fontes bíblicas: Isaías 58; Lucas 4:18-19 (NVI). - Missão não é escravidão religiosa
“...liberação do escuro da prisão para os presos…” (Isaías 61:1, NVI)
Paulo confrontou o legalismo:
“Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão.” (Gálatas 5:1, NVI)
A missão forma discípulos maduros e responsáveis diante de Deus, não dependentes perpétuos de estruturas humanas.
Bonhoeffer chamou isso de “graça custosa”:
“A graça custosa é o tesouro escondido no campo… é o chamado de Cristo a segui-lo.”⁸ - Missão não é condenação
“...para proclamar o ano da bondade do Senhor.” (Isaías 61:2, NVI)
Jesus interrompe a leitura antes do “dia da vingança”. Ele revela que o centro de sua vinda é a graça.
John Stott observou:
“O Evangelho só é boas novas se for, de fato, anúncio de reconciliação, e não de julgamento iminente.”⁹
A missão trata o pecado à luz da cruz, oferecendo reconciliação.
Fontes bíblicas: João 3:17; Romanos 8:1 (NVI). - O que, então, é missão segundo Isaías 61?
- Participar da obra redentora de Deus no mundo
- Restaurar dignidade, não impor identidade
- Libertar consciências, não controlá-las
- Anunciar graça sem negar a verdade
- Servir aos feridos, não dominá-los
O Pacto de Lausanne (1974) ecoa essa visão integral:
“Afirmamos que a evangelização e o envolvimento sociopolítico são ambos parte do nosso dever cristão. Pois ambos são expressões necessárias do nosso amor ao próximo e da nossa obediência a Jesus Cristo.”¹⁰ (Parágrafo 5)
Conclusão
Isaías 61 nos protege de uma missão triunfalista ou opressora. Ele nos conduz a uma missão encarnada, humilde e restauradora — onde Deus, em movimento, troca “cinzas na cabeça por uma bela coroa”, “pranto por óleo de alegria” e “espírito de desespero por um manto de louvor” (Isaías 61:3, NVI).
Missão não é expansão de poder religioso. É Deus reconstruindo vidas marcadas por perdas, devolvendo beleza onde só havia cinzas.
Qualquer missão que não reflita esse Cristo de Isaías 61 pode usar linguagem bíblica — mas já se afastou do Evangelho que diz anunciar.
Como a missão de sua comunidade ou igreja reflete hoje o coração restaurador de Isaías 61? Onde precisamos nos arrepender de distorções e nos realinhar à Missio Dei?
Notas de rodapé
¹ BARTH, Karl. Dogmática Eclesiástica, vol. I/1. São Paulo: Editora Novo Século, 2008, p. 282.
² BOSCH, David J. Transforming Mission. Maryknoll: Orbis Books, 1991, p. 390.
³ NEWBIGIN, Lesslie. O Evangelho num Mundo Pluralista. São Paulo: Edições Vida Nova, 2010, p. 184.
⁴ WRIGHT, Christopher J. H. A Missão de Deus. São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 302.
⁵ BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Leopoldo: Sinodal, 2011, p. 58.
⁶ PADILLA, René. Missão Integral. São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 32.
⁷ STOTT, John. A Igreja na Missão de Deus. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009, p. 87.
⁸ BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Leopoldo: Sinodal, 2011, p. 25.
⁹ STOTT, John. Cristianismo Básico. São Paulo: Edições Vida Nova, 2017, p. 102.
¹⁰ Pacto de Lausanne (1974), parágrafo 5. Disponível em: https://lausanne.org/pt-BR/textos-pt-br/pacto-de-lausanne.
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