Religião Política: Por que tratamos candidatos como deuses e opositores como demônios?

Série: Entre Algoritmos e Almas — Ep. 04

Entre o Palanque e o Altar

A centralidade da política no Brasil de 2025 e a tentação da idolatria coletiva

Não estamos apenas vivendo tendências. Estamos sendo formados por elas.

Entre o Palanque e o Altar: A Política como Religião Civil

"Quando a política ocupa o lugar do altar, a fé é instrumentalizada."

Em 2025, a política permaneceu como o principal assunto nas conversas digitais no Brasil. Milhões de menções diárias atravessam plataformas, dividem amizades, reorganizam identidades e moldam percepções de realidade. A pauta política deixou de ser apenas debate institucional e tornou-se atmosfera existencial.

Não se trata apenas de eleições, partidos ou lideranças. A política tornou-se lente hermenêutica através da qual muitos interpretam o mundo, definem o bem e o mal, estabelecem alianças e constroem pertencimento. Estamos diante de um fenômeno que ultrapassa o campo institucional. Estamos diante de uma espiritualização da política.

1. Política como identidade total

Hannah Arendt advertiu que regimes totalizantes eliminam a pluralidade própria do espaço político e substituem o debate por antagonismo absoluto (ARENDT, 2012, p. 476). Quando a política perde sua dimensão plural, ela deixa de ser espaço de deliberação e transforma-se em arena moral.

No Brasil contemporâneo, observa-se algo semelhante: posicionamentos políticos passaram a definir caráter, virtude e até espiritualidade. O indivíduo não é apenas alguém que possui opinião; ele é sua opinião. Zygmunt Bauman descreve a modernidade líquida como cenário de identidades instáveis que buscam âncoras sólidas em meio à fluidez social (BAUMAN, 2001, p. 85). A política oferece narrativa simples: nós contra eles. Essa estrutura produz sensação de clareza emocional diante da complexidade.

Entretanto, clareza emocional não equivale a verdade. Quando a identidade política se torna identidade total, qualquer discordância é percebida como ameaça ontológica.

2. A lógica do inimigo e o mecanismo do bode expiatório

René Girard argumenta que sociedades tensionadas restauram coesão ao direcionar violência simbólica contra um inimigo comum (GIRARD, 2004, p. 34). O adversário político passa a concentrar frustrações, medos e ressentimentos coletivos.

No ambiente digital, essa dinâmica é amplificada. Algoritmos privilegiam conteúdos que provocam indignação, pois a emoção intensa gera engajamento. Friedrich Nietzsche identifica o ressentimento como força criadora de valores reativos, estruturados na negação do outro (NIETZSCHE, 2009, p. 29). Quando a política se alimenta de ressentimento, ela deixa de buscar o bem comum e passa a buscar a derrota moral do adversário.

"O debate público torna-se ritual de exorcismo simbólico. Não se argumenta para compreender; argumenta-se para condenar."

3. A idolatria política e o desejo por salvadores

A tradição bíblica reconhece a importância da organização política, mas alerta contra sua absolutização. Em 1 Samuel 8, o pedido por um rei revela desejo de segurança semelhante ao das demais nações. Agostinho distingue a cidade terrena da Cidade de Deus ao afirmar que a primeira é marcada pelo amor a si até o desprezo de Deus, enquanto a segunda é orientada pelo amor a Deus até o desprezo de si (AGOSTINHO, 2017, p. 846).

C. S. Lewis alerta que sistemas humanos podem assumir pretensões absolutas que pertencem apenas ao âmbito divino (LEWIS, 2005, p. 75). Quando ideologias oferecem sentido total de pertencimento e salvação histórica, ultrapassam sua competência legítima. No Brasil de 2025, observa-se frequentemente essa tentação: líderes transformados em figuras quase redentoras; opositores tratados como encarnações do mal. Quando a política ocupa o lugar do altar, a fé é instrumentalizada.

4. A crise da verdade e o colapso do diálogo

Arendt observa que a erosão da verdade factual fragiliza o espaço público e abre caminho para narrativas ideológicas (ARENDT, 2012, p. 441). Em ambiente digital, versões da realidade disputam adesão emocional como produtos concorrentes. A consequência é o colapso do diálogo. Se o outro não é interlocutor, mas ameaça moral, a conversa torna-se impossível.

A política deixa de ser busca compartilhada por soluções e passa a ser guerra simbólica por legitimidade. O cristianismo, entretanto, sustenta que a verdade não é propriedade de grupo, mas realidade que confronta todos. A verdade não se reduz a narrativa conveniente; ela julga inclusive nossos próprios pressupostos.

5. Cristo diante do poder político

Jesus viveu sob domínio romano, em contexto de polarização intensa entre grupos judaicos. Cristo recusou tanto a violência revolucionária quanto a submissão idolátrica. Sua afirmação — “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18,36) — redefine a relação entre fé e poder político.

Isso não significa indiferença cívica. Significa que o Reino de Deus não se confunde com projetos partidários. A cruz revela a limitação do poder humano. O Estado romano executa; autoridades religiosas acusam; multidões oscilam. Ainda assim, a redenção não emerge da vitória política, mas do sacrifício. A lógica do Reino subverte a lógica do palanque.

CONCLUSÃO

Entre engajamento e idolatria

O fato de a política dominar as conversas digitais no Brasil de 2025 revela inquietação coletiva legítima. O país busca direção, justiça e estabilidade. Contudo, quando a política se torna centro absoluto, ela absorve afetos, energias e esperanças que não pode sustentar.

O desafio cristão é duplo: Não se omitir da responsabilidade pública e Não absolutizar o poder temporal. Entre o palanque e o altar existe uma linha tênue. Quando ultrapassada, a política deixa de servir à sociedade e passa a exigir devoção.

Se a política ocupa o centro do coração, ela se tornará ídolo.
Se Cristo ocupa o centro, a política retorna ao seu lugar adequado.


REFERÊNCIAS

  • AGOSTINHO. A cidade de Deus. Petrópolis: Vozes, 2017.
  • ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
  • BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
  • GIRARD, René. Eu via Satanás cair como um relâmpago. São Paulo: Paz e Terra, 2004.
  • LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
  • NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Por que escrevi Entre o Altar e o Palácio

Entre o Altar e o Palácio

O Ativismo Religioso e a Crise do Coração Cristão