A Anatomia do Autoengano: O Fim das Desculpas
O AUTOENGANO: QUANDO CONVENCEMOS A NÓS MESMOS DE QUE ESTÁ TUDO CERTO (Série: Ep. 15/15)
Existe um tipo de erro mais perigoso do que o erro em si.
Aquele que conseguimos justificar.
Não diante dos outros.
Mas dentro de nós.
Em 2 Samuel, não vemos apenas decisões erradas.
Vemos algo mais sutil:
Um processo de autoengano.
Um ajuste interno da narrativa para que aquilo que é errado… pareça aceitável.
Nada indica que Davi tenha perdido completamente a noção do certo.
O que vemos é diferente:
Ele reorganiza a situação ao redor para evitar encarar o que aconteceu.
"Então Davi enviou a Joabe, dizendo: Não pareça isto mal aos teus olhos…" (BÍBLIA, 2Sm 11:25).
Essa frase revela muito.
Não é apenas uma orientação externa.
É um reflexo interno.
Uma tentativa de normalizar o que deveria ser confrontado.
Carl Gustav Jung descreve o autoengano como um mecanismo onde evitamos a verdade para preservar a imagem que temos de nós mesmos (JUNG, 2011, p. 61).
E isso não acontece de forma consciente no início.
Acontece em pequenas distorções:
"Não foi tão grave assim."
"Era necessário."
"Não havia outra opção."
O problema do autoengano é que ele não elimina a verdade.
Ele apenas cria distância.
Fiódor Dostoiévski mostra que o ser humano pode sustentar justificativas por muito tempo — mas não consegue eliminar completamente a consciência (DOSTOIÉVSKI, 2017, p. 176).
Porque, no fundo, sabemos.
O mais inquietante é que o autoengano permite continuidade.
Enquanto acreditamos na narrativa que criamos, seguimos.
Decidimos.
Agimos.
Repetimos.
Sem interrupção.
Mas existe um limite.
E ele aparece quando a realidade não pode mais ser reinterpretada.
Natã entra na história não apenas para acusar.
Mas para quebrar o autoengano.
"Tu és esse homem" (BÍBLIA, 2Sm 12:7).
Essa frase não traz uma informação nova.
Ela revela o que já era verdadeiro — mas estava sendo evitado.
Viktor Frankl afirma que a consciência não deixa de existir quando ignorada — ela apenas aguarda ser ouvida (FRANKL, 2008, p. 121).
E, quando finalmente é confrontada, há apenas duas opções:
Negar…
ou reconhecer.
Davi escolhe reconhecer:
"Pequei contra o Senhor" (BÍBLIA, 2Sm 12:13).
Nesse momento, o autoengano perde força.
E a verdade assume seu lugar.
Em Salmos, vemos o resultado dessa ruptura:
"Eis que amas a verdade no íntimo" (BÍBLIA, Sl 51:6).
A transformação começa quando a verdade deixa de ser evitada…
e passa a ser desejada.
Essa narrativa nos confronta com uma pergunta inevitável:
Que histórias estamos contando a nós mesmos…
para evitar encarar a realidade?
Porque o autoengano pode proteger por um tempo.
Mas nunca sustenta.
E quanto mais tempo sustentamos uma versão distorcida…
mais difícil se torna voltar à verdade.
No fim, não é o erro que mais nos distancia.
É a insistência em não reconhecê-lo.
Porque a verdade não precisa ser criada.
Ela precisa ser aceita.
E é nesse momento…
que tudo começa a mudar.
Referências (ABNT)
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.
JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2011.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e Castigo. São Paulo: Editora 34, 2017.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. Petrópolis: Vozes, 2008.
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