A Ilusão da Eficiência sem Princípios

O CRIME QUE FUNCIONOU — MAS NÃO SE SUSTENTOU (Série: Ep. 09/15)

Descubra por que a eficácia de uma decisão não valida sua moralidade e o perigo de confundir 'dar certo' com 'estar certo' à luz de 2 Samuel.
Descubra por que a eficácia de uma decisão não valida sua moralidade e o perigo de confundir 'dar certo' com 'estar certo' à luz de 2 Samuel.

Há decisões que "funcionam".

Resolvem o problema imediato.
Organizam a situação.
Evitam exposição.
Protegem a imagem.

Mas existe uma pergunta que raramente fazemos:

Funcionar… é o mesmo que estar certo?

Em 2 Samuel, vemos uma sequência de decisões que, do ponto de vista operacional, deram certo.

A estratégia foi executada.
A narrativa foi mantida.
O risco foi eliminado.

"E morreu também Urias, o heteu" (BÍBLIA, 2Sm 11:17).

O objetivo foi alcançado.

E talvez seja exatamente isso que torna essa história tão desconfortável.

Porque ela desmonta uma ideia comum:

A de que, se resolveu… então foi válido.

Nicolau Maquiavel ficou conhecido por discutir a lógica onde os fins justificam os meios (MAQUIAVEL, 2010, p. 92).

E, olhando superficialmente, essa narrativa parece seguir esse caminho.

Um problema surgiu.
Uma solução foi aplicada.
O cenário foi estabilizado.

Mas a história não termina aqui.

Há uma linha no texto que muda completamente a leitura:

"Porém isto que Davi fez pareceu mal aos olhos do Senhor" (BÍBLIA, 2Sm 11:27).

Essa frase rompe com a lógica do resultado.

Porque estabelece um princípio:

O sucesso de uma ação não valida sua moralidade.

Immanuel Kant argumenta que o valor de uma ação não está no resultado, mas na intenção e no princípio que a sustenta (KANT, 2007, p. 63).

E isso cria um contraste direto com a lógica utilitarista:

Nem tudo que funciona… é justo.
Nem tudo que resolve… é correto.

O mais inquietante é que, por um momento, tudo parecia estável.

Não houve crise imediata.
Não houve questionamento público.
Não houve perda aparente.

Mas havia uma falha estrutural:

A verdade foi substituída pela conveniência.

Hannah Arendt observa que sistemas podem continuar operando normalmente mesmo quando baseados em decisões moralmente comprometidas (ARENDT, 1999, p. 302).

Ou seja:

A ausência de colapso imediato não é sinal de saúde.

E então, no capítulo seguinte, surge Natã.

Sem estrutura de poder.
Sem influência institucional.

Apenas com uma verdade.

"Tu és esse homem" (BÍBLIA, 2Sm 12:7).

E, naquele momento, tudo o que "funcionava" deixa de se sustentar.

Essa narrativa revela algo essencial:

O problema de decisões erradas não é apenas o que elas causam externamente.

É o que elas constroem internamente.

Viktor Frankl afirma que o ser humano pode evitar muitas consequências externas — mas não pode fugir de si mesmo (FRANKL, 2008, p. 118).

E é exatamente isso que vemos aqui.

O plano funcionou.
Mas não trouxe paz.
Não trouxe integridade.
Não trouxe sustentação.

A pergunta que fica é inevitável:

Quantas decisões tomamos baseados apenas no fato de que "vai dar certo"?

Porque dar certo… não é suficiente.

No fim, essa história nos convida a um tipo mais profundo de avaliação:

Não apenas "isso resolve?"
Mas "isso é correto?"

Porque existem caminhos que parecem eficientes…
mas não são sustentáveis.

E tudo o que não se sustenta na verdade…
mais cedo ou mais tarde, desmorona.


Referências (ABNT)

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Martin Claret, 2010.

KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. São Paulo: Martin Claret, 2007.

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. Petrópolis: Vozes, 2008.

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