O Monstro que Habita no Poder

O DIA EM QUE UM HOMEM JUSTO CARREGOU A PRÓPRIA SENTENÇA (Série: Ep. 07/15)

Não confunda negócios com sentimentos. Líderes precisam tomar decisões difíceis para manter a ordem. Se a verdade vier à tona, o dano para o reino inteiro será catastrófico
Não confunda negócios com sentimentos. Líderes precisam tomar decisões difíceis para manter a ordem. Se a verdade vier à tona, o dano para o reino inteiro será catastrófico

Algumas histórias são difíceis de esquecer — não pela complexidade, mas pela clareza.

Elas nos colocam diante de algo que não conseguimos relativizar.

Em 2 Samuel, há uma cena silenciosa e profundamente perturbadora:

"Escreveu Davi uma carta a Joabe e a mandou pelas mãos de Urias" (BÍBLIA, 2Sm 11:14).

Um homem chamado Urias caminha… carregando nas mãos a mensagem que determinaria sua morte.

Sem saber.
Sem suspeitar.
Sem chance de defesa.


O impacto dessa cena não está apenas no que acontece.

Está no contraste.

Urias era leal.
Comprometido.
Íntegro.

"A arca, Israel e Judá ficam em tendas… e eu iria à minha casa?" (BÍBLIA, 2Sm 11:11).

Enquanto isso, quem tinha poder… estava tomando decisões no silêncio.

E aqui surge uma das tensões mais antigas da história humana:

Nem sempre caráter e poder caminham juntos.


Friedrich Nietzsche alertou que aquele que luta com monstros deve cuidar para não se tornar um (NIETZSCHE, 2005, p. 98).

E talvez essa seja uma das leituras possíveis dessa narrativa:

O problema não começa na ação final.
Começa na transformação interna.


O mais inquietante é que tudo acontece de forma organizada.

Não há caos.
Não há impulso.
Há cálculo.

"Retirai-vos de detrás dele, para que seja ferido e morra" (BÍBLIA, 2Sm 11:15).

Uma decisão pensada.
Executada com precisão.

E isso nos confronta com uma realidade desconfortável:

O erro nem sempre é fruto de descontrole.
Às vezes, é fruto de racionalização.


Hannah Arendt observou que o mal pode assumir formas administrativas — onde decisões graves são tratadas como procedimentos (ARENDT, 1999, p. 301).

E é exatamente isso que vemos aqui.

Uma vida sendo tratada como variável de ajuste.


Mas há algo que a narrativa não permite esquecer:

"Porém isto que Davi fez pareceu mal aos olhos do Senhor" (BÍBLIA, 2Sm 11:27).

Mesmo quando ninguém questiona…
a verdade não desaparece.


Viktor Frankl escreveu que o ser humano pode perder tudo — exceto a capacidade de responder moralmente às circunstâncias (FRANKL, 2008, p. 87).

Urias responde com integridade.
Ele permanece fiel até o fim.

E isso torna sua história ainda mais forte.


No capítulo seguinte, a narrativa muda.

Natã confronta diretamente o que foi feito:

"Tu és esse homem" (BÍBLIA, 2Sm 12:7).

E, naquele momento, o silêncio se rompe.


Essa história não é apenas sobre uma injustiça.

É sobre um contraste que continua atual:

Pessoas que mantêm sua integridade… mesmo sem reconhecimento.
E pessoas que comprometem tudo… para sustentar uma posição.


A pergunta que fica não é apenas sobre o passado.

É sobre o presente:

Se estivermos na posição de Urias, manteremos nossa integridade?
Se estivermos na posição de poder, manteremos nossa consciência?


Porque, no fim, não é o que carregamos nas mãos que define quem somos.

É o que carregamos dentro de nós.


E essa… ninguém pode entregar por nós.

Referências (ABNT)


BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. Petrópolis: Vozes, 2008.

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